O celular de Daniel Vorcaro virou uma peça central da investigação sobre o Banco Master. Segundo a Polícia Federal, o fundador da instituição pediu a um interlocutor que acionasse Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, e Paulo Gonet, procurador-geral da República, para impedir que subordinados tomassem medidas contra ele.

A anotação é de 30 de outubro de 2025 — 18 dias antes de Vorcaro ser preso na primeira fase da Operação Compliance Zero. Naquele momento, ele afirmava ter recebido informações confidenciais de pessoas dentro do Banco Central de que a PF e o Ministério Público pressionavam a autoridade monetária para adotar alguma medida contra ele.

“É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco”, escreveu Vorcaro, segundo a PF.

O que o celular revela

Antes do pedido envolvendo Andrei e Gonet, Vorcaro registrou que havia recebido “informações informais e em confidência” de pessoas do Banco Central. Segundo ele, essas fontes teriam dito que Gabriel Galípolo, presidente do BC, e outros diretores estavam sob “pressão máxima” da PF e do MP.

Cerca de 25 minutos depois, ele fez nova anotação intitulada “De pessoas de dentro do Bacen que são meus amigos e ficaram preocupados”. Disse que as informações eram “100% confiáveis” e que não poderia identificar as fontes para não “queimá-las”.

A PF afirma que as duas anotações foram apagadas poucos minutos depois e recuperadas na extração dos dados. Para os investigadores, a exclusão reforça a suspeita de que Vorcaro tentava não deixar rastros sobre o recebimento e compartilhamento de informações confidenciais vindas de funcionários públicos.

A lista de nomes

As mensagens foram registradas menos de duas semanas depois de uma reunião sigilosa entre PF e Banco Central, em 17 de outubro de 2025, para tratar da investigação sobre o Master.

Em 21 de outubro — quatro dias após o encontro —, Vorcaro registrou em seu celular nomes de integrantes da PF relacionados à reunião: Dennis Cali, então diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado; Guilherme Alves de Siqueira, chefe da Divisão de Repressão a Crimes Financeiros; o agente Wilker Goulart; e os delegados Janaína e Britto, ligados aos inquéritos da Compliance Zero.

A lista também trazia nomes de integrantes do Ministério Público — embora, segundo a própria PF, eles não tenham participado da reunião. A sequência sustenta a suspeita de que Vorcaro tinha acesso a informações reservadas antes da deflagração da operação.

Os pedidos a Moraes

As referências a Andrei e Gonet não ficaram restritas a 30 de outubro. Em 15 de novembro de 2025 — dois dias antes da prisão —, Vorcaro voltou a mencioná-los. Em mensagem enviada ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, perguntou: “Não conseguimos reverter isso com Paulo e Andrei?” e classificou a situação como “muita sacanagem”.

No dia seguinte, 16 de novembro, voltou a mencionar o diretor-geral da PF. Perguntou se “com Andrei dá para segurar” e afirmou que, se o chefe da corporação conseguisse adiar uma medida para a semana seguinte, o banco não quebraria.

A sucessão de registros mostra que Vorcaro buscava, nos dias anteriores à operação, saber se medidas investigativas poderiam ser evitadas ou adiadas. Vorcaro foi preso em 17 de novembro de 2025, quando se preparava para deixar o Brasil pelo Aeroporto Internacional de Guarulhos.

A pergunta central fica no ar: se Vorcaro tinha informações privilegiadas e canais abertos com as cúpulas da PF, da PGR e do STF, quem mais estava vazando? E por que ninguém foi responsabilizado por isso até agora?

Fonte: Poder360