Diferentemente do que ocorreu nas últimas eleições presidenciais brasileiras, a Casa Branca não havia reconhecido publicamente a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) até o começo da manhã desta segunda-feira (26 de outubro de 2026).

Com 100% das urnas apuradas, Lula teve 64 milhões de votos (51,79% dos válidos), contra 59 milhões de Flávio Bolsonaro (PL), ou 48,21%. O resultado foi proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) às 21h08 do domingo (25).

O silêncio do presidente americano, Donald Trump, contrasta com:

  • A rapidez de Washington em pleitos anteriores;
  • A reação de vários líderes estrangeiros, inclusive governantes de direita da América Latina, que já cumprimentaram Lula e reconheceram o resultado.

Uma tradição interrompida

AnoPresidente dos EUAComo foi o reconhecimento
2002George W. BushTelefonou a Lula cerca de um dia depois da eleição
2014Barack ObamaFelicitou Dilma Rousseff no dia seguinte à votação
2018Donald TrumpLigou para Jair Bolsonaro na noite do domingo do segundo turno
2022Joe BidenParabenizou Lula por uma vitória em eleições "livres, justas e confiáveis", antes mesmo de Bolsonaro admitir a derrota
2026Donald TrumpSilêncio até a manhã desta segunda-feira

Quem parabenizou Lula

Líderes de diferentes espectros políticos já se manifestaram. Entre eles:

  • Santiago Peña (Paraguai, direita)
  • José Antonio Kast (Chile, direita) — amigo de Flávio Bolsonaro, telefonou para Lula
  • Keiko Fujimori (Peru, direita)
  • Claudia Sheinbaum (México, esquerda)
  • Yamandú Orsi (Uruguai, esquerda)
  • Rodrigo Paz (Bolívia)
  • José Raúl Mulino (Panamá)
  • Mark Carney (Canadá)
  • Emmanuel Macron (França)
  • Pedro Sánchez (Espanha)
  • Ursula von der Leyen (Comissão Europeia)
  • Narendra Modi (Índia)

Quem está em silêncio?

Até a manhã desta segunda-feira (26), dois presidentes não haviam se manifestado publicamente:

  • Donald Trump (EUA)
  • Javier Milei (Argentina)

O que dizem os especialistas

Christopher Sabatini, pesquisador sênior para América Latina do centro de estudos Chatham House, em Londres:

Para Sabatini, o silêncio pode refletir frustração política:

O pesquisador lembra que Trump chegou a se gabar de ter levado nove presidentes ao poder na América Latina:

Expectativa de alinhamento regional

Anthony Pereira, diretor executivo do Centro para Estudos Latino-Americanos da Universidade Tulane, nos EUA, disse:

O Escudo das Américas é uma coalizão de segurança lançada por Trump em março de 2026, na Flórida, para combater cartéis e narcotráfico e, segundo analistas, conter a influência da China. O Brasil ficou de fora.

"Trump odeia perdedores"

Sabatini acrescenta que Trump costuma admirar líderes vistos como politicamente fortes:

Para o pesquisador, o presidente americano pode estar digerindo uma derrota política de um aliado, mas também pode enxergar em Lula atributos que respeita — afinal, Lula "saiu da prisão e voltou para vencer a Presidência".

Impacto nas eleições americanas

Pereira vê ainda efeitos indiretos na política interna dos EUA, às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato:

O que Lula disse sobre os EUA

No discurso da vitória, Lula evocou uma frase do cantor Chico Buarque para defender uma política externa independente, dizendo que o Brasil não deveria "falar grosso com a Bolívia e fino com os Estados Unidos":

Ao comentar a mobilização na avenida Paulista, afirmou que o Brasil "não aceita ser quintal de ninguém". Criticou também a "intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais", sem citar governos.

Fonte:Bbc