Medicamentos originalmente desenvolvidos para tratar diabetes tipo 2 e obesidade — os chamados análogos e agonistas do GLP-1, como a semaglutida (Ozempic, Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro) — estão sendo avaliados por cientistas e médicos para um novo uso: o controle do consumo de álcool e drogas.
A informação foi publicada pelo jornal O Globo em 12 de outubro de 2026, com base em estudos recentes publicados em periódicos como o British Medical Journal (BMJ) e o The Lancet.
Diante dos resultados promissores, especialistas dentro e fora do Brasil já começaram a prescrever esses medicamentos off-label — ou seja, fora da bula de indicação, prática permitida na medicina quando há evidências científicas que justifiquem o uso.
O que está em jogo:
- Pesquisa no BMJ: avaliou 600 mil pacientes veteranos das Forças Armadas dos EUA com diabetes tipo 2. O uso desses medicamentos foi associado à redução do risco de desenvolver transtornos de abuso de álcool, cocaína, nicotina e opioides.
- Pesquisa no The Lancet (2024): avaliou 108 pessoas com transtorno de uso de álcool de moderado a grave ao longo de 26 semanas. O grupo que usou semaglutida teve redução de 41% nos dias de consumo excessivo de álcool, contra 26% no grupo placebo.
- Estudo em andamento: a farmacêutica Lilly, desenvolvedora da tirzepatida, está conduzindo dois estudos com uma molécula experimental da mesma classe, chamada brenipatide, para transtorno por uso de álcool. Os resultados devem ser conhecidos em 2028.
O consumo de álcool é um dos maiores problemas de saúde pública do mundo. No Brasil, dados recentes mostram que:
- 63,6% dos brasileiros já consumiram álcool alguma vez na vida.
- 44,2% beberam no último ano e 31,6% no último mês.
- Um em cada três consumidores pratica episódios de consumo pesado (binge drinking).
- O consumo abusivo tem aumentado, especialmente entre mulheres e adolescentes.
O tratamento do alcoolismo enfrenta desafios históricos: altas taxas de recaída, poucas opções medicamentosas e estigma social. Os medicamentos aprovados para essa indicação — como o dissulfiram, a naltrexona e o acamprosato — funcionam para alguns pacientes, mas não para todos.
Se os análogos de GLP-1 se confirmarem como uma opção eficaz, isso pode representar uma mudança de paradigma no tratamento da dependência química.
Como esses medicamentos funcionam no cérebro?
Os análogos de GLP-1 atuam em duas frentes:
- No intestino e no pâncreas: aumentam a produção de insulina, reduzem o glucagon e retardam o esvaziamento gástrico, o que diminui o apetite.
- No cérebro: modulam o sistema de recompensa, reduzindo a liberação de dopamina em resposta a estímulos que normalmente causam prazer.
A dopamina é o neurotransmissor central do sistema de recompensa. Quando uma pessoa bebe álcool, o cérebro libera dopamina, gerando sensação de prazer. Os GLP-1 parecem reduzir essa liberação, o que diminui o desejo (craving) pela substância.
O que os estudos mostram?
Estudo no BMJ (2026):
- População: 600 mil veteranos das Forças Armadas dos EUA com diabetes tipo 2.
- Resultado: uso de semaglutida ou tirzepatida foi associado a menos internações relacionadas ao álcool e menor risco de transtornos por uso de álcool, cocaína, nicotina e opioides.
- Publicação: BMJ, março de 2026.
Estudo no The Lancet (2024):
- População: 108 pacientes com transtorno de uso de álcool de moderado a grave.
- Duração: 26 semanas.
- Resultado: o grupo que usou semaglutida teve redução de 41,1 pontos percentuais nos dias de consumo excessivo, contra 26,4 pontos no grupo placebo.
- Diferença estatisticamente significativa: P=0,0015.
Estudos com brenipatide (Lilly):
- Molécula: brenipatide, da mesma classe dos GLP-1.
- Indicação: transtorno por uso de álcool.
- Fase: 3 (última etapa antes da aprovação regulatória).
- Resultados esperados: meados de 2028.
O que é uso off-label?
Uso off-label é quando um medicamento é prescrito para uma indicação diferente daquela aprovada pela agência reguladora (no Brasil, a Anvisa). Isso é permitido na prática médica quando há evidências científicas que justifiquem o uso e quando o médico avalia que o benefício supera o risco para aquele paciente específico.
No caso das canetas emagrecedoras, a Anvisa não aprovou o uso para transtorno de uso de álcool. Mas psiquiatras brasileiros já fazem uso off-label.