A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro do medicamento Farmanguinhos Arpraziquantel (arpraziquantel) , indicado para o tratamento da esquistossomose em crianças de 3 meses a 6 anos de idade.

A decisão foi publicada no Diário Oficial da União desta quarta-feira (30) . O medicamento é produzido pelo Farmanguinhos, unidade da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) responsável pela produção de medicamentos para o SUS.

A esquistossomose é considerada um problema de saúde pública no Brasil e integra a lista de doenças tropicais negligenciadas — grupo de enfermidades que afetam predominantemente populações de baixa renda em áreas tropicais e subtropicais.

Por que essa aprovação é importante

A esquistossomose, popularmente conhecida como "barriga d'água", é uma doença causada por parasitas do gênero Schistosoma. No Brasil, a espécie mais comum é a Schistosoma mansoni.

A doença afeta milhões de pessoas em todo o mundo e está diretamente ligada a falta de saneamento básico, acesso precário à água tratada e condições de moradia inadequadas. Em áreas rurais e periferias urbanas, onde caracóis de água doce estão presentes, o risco de infecção é maior.

O problema central que a nova aprovação resolve:

Até agora, o medicamento padrão para tratar a doença — o Praziquantel — era indicado apenas para crianças maiores de 4 anos. Isso deixava uma lacuna no atendimento infantil: bebês e crianças pequenas infectadas não tinham acesso a um tratamento específico e seguro.

Com a aprovação do arpraziquantel, essa lacuna começa a ser preenchida.

Como a doença é transmitida?

A transmissão ocorre quando uma pessoa entra em contato com água doce contaminada por caracóis infectados com o parasita.

O ciclo funciona assim:

1. Ovos eliminados: uma pessoa infectada elimina ovos do parasita nas fezes ou na urina.

2. Eclosão na água: se esses ovos chegam a água doce, eclodem e liberam miracídios (primeiro estágio larval dos vermes).

3. Infecção do caracol: os miracídios penetram em caracóis de água doce, onde se multiplicam.

4. Liberação de cercárias: depois de se multiplicarem, os caracóis liberam milhares de cercárias — larvas de vida livre capazes de nadar.

5. Penetração na pele humana: as cercárias penetram a pele humana em questão de minutos após a exposição.

6. Transformação em esquistossômulos: dentro do corpo humano, perdem a cauda bifurcada e se transformam em esquistossômulos.

7. Migração para o fígado: os esquistossômulos se deslocam pela circulação sanguínea até o fígado, onde amadurecem e se tornam adultos.

8. Instalação definitiva: os vermes adultos migram para as veias intestinais ou para o plexo venoso do trato geniturinário — conjunto de veias que drenam os órgãos urinário e reprodutor.

Quais são os sintomas?

A doença pode se manifestar de duas formas:

Forma aguda (entre 2 e 6 semanas após o contato com a água contaminada):

  • Coceira e vermelhidão no local onde o verme entrou.
  • Febre.
  • Dor de cabeça.
  • Tosse.
  • Fraqueza.
  • Acúmulo de líquido no abdome (devido ao aumento do fígado e do baço) — o que dá origem ao nome popular "barriga d'água".
  • Emagrecimento acentuado.

Forma crônica (meses ou anos após a infecção inicial):

  • Pode levar a complicações graves no fígado, baço e intestino.
  • Em casos mais severos, pode afetar pulmões, sistema nervoso central e medula espinhal.

Por que as crianças são tão afetadas?

As crianças desempenham um papel central no ciclo de transmissão do parasita, por uma combinação de fatores:

Fator - Explicação
Maior exposição - Crianças costumam brincar, nadar e tomar banho em rios, lagos e açudes com frequência.
Imunidade em desenvolvimento - O sistema imunológico infantil ainda está amadurecendo, o que facilita a infecção.
Hábitos de higiene - O hábito de evacuar próximo ou diretamente dentro de corpos d'água é comum em algumas comunidades, o que contamina a água e perpetua o ciclo.
Fatores socioambientais - Falta de saneamento básico e acesso limitado à água tratada aumentam o risco.

Como age o arpraziquantel?

O arpraziquantel é absorvido pelos vermes nos vasos sanguíneos do paciente e causa:

  • Espasmos musculares e paralisia nos parasitas, o que interrompe sua fixação na região.
  • Danos ao tegumento — uma barreira que protege o parasita do sistema imunológico. Com isso, o corpo consegue destruir os vermes.

Segundo a Anvisa, o medicamento também danifica essa camada protetora, permitindo que o sistema de defesa do organismo ataque e elimine os parasitas.

O que ainda não se sabe

  • Quando o medicamento estará disponível no SUS: a aprovação da Anvisa é o primeiro passo, mas a incorporação ao sistema público depende de avaliação da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS).
  • Qual será o preço: o valor do tratamento ainda não foi divulgado.
  • Qual será a capacidade de produção: o Farmanguinhos não informou quantas doses podem ser produzidas por ano.
  • Se haverá distribuição gratuita: a expectativa é que sim, mas não há confirmação oficial.
  • Se o medicamento será exportado: a OMS pode incluir o arpraziquantel em programas internacionais de combate à esquistossomose.
  • Qual o prazo para início da distribuição: não há data definida.

Linha do tempo

DataAcontecimento
Século XXPraziquantel se torna o medicamento padrão para esquistossomose, mas com restrição para maiores de 4 anos
Décadas seguintesOrganização Mundial da Saúde (OMS) alerta para a necessidade de tratamento pediátrico
2020-2025Farmanguinhos desenvolve o arpraziquantel em parceria com instituições internacionais
30 de setembro de 2026Anvisa aprova o registro do Farmanguinhos Arpraziquantel
Data indefinidaAvaliação da Conitec para incorporação ao SUS
Data indefinidaInício da distribuição gratuita pelo SUS

Fonte:Veja