Os preços dos medicamentos para perda de peso caíram mais de 20% no Brasil, segundo dados do segundo trimestre de 2026. A queda foi puxada pela chegada de genéricos e similares da semaglutida — princípio ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy — após a expiração da patente da Novo Nordisk em março deste ano.

O movimento provocou um aumento expressivo no volume de vendas. Na rede Pague Menos, a queda de 50% no preço da semaglutida foi acompanhada por um salto de 155% nas vendas unitárias diárias. No caso da tirzepatida, a redução de preço foi de 23%, com crescimento de 60% no volume.

A notícia foi divulgada pelo Valor Econômico e mostra que os balanços do segundo trimestre de 2026 registram uma acomodação no crescimento nominal das receitas das grandes redes de farmácia com os análogos de GLP-1, mas um avanço significativo nos volumes vendidos.

Por que isso importa

O mercado de medicamentos GLP-1 (agonistas do receptor de glucagon-like peptide-1) explodiu no Brasil nos últimos anos. Nos 12 meses até fevereiro de 2026, as vendas nas farmácias somaram R$ 13,49 bilhões, ante R$ 6,47 bilhões no período anterior — um salto de 105,9%.

A representatividade da categoria no volume total de negócios farmacêuticos chegou a 5,4%, bem acima dos 2,9% registrados em fevereiro de 2025.

No entanto, o acesso ainda é extremamente restrito. Dos 140 milhões de brasileiros adultos, 68% estão obesos ou convivem com sobrepeso. Mas as doses vendidas atualmente atendem, no máximo, 1 milhão de pessoas — deixando cerca de 95 milhões de potenciais pacientes fora do mercado.

A queda de preços, portanto, não é apenas uma notícia de mercado: é uma questão de saúde pública.

Por que os preços caíram?

O principal fator foi a expiração da patente da semaglutida em março de 2026. A patente garantia à Novo Nordisk exclusividade na produção e comercialização do medicamento no Brasil. Com o fim dessa exclusividade, outros laboratórios puderam desenvolver versões genéricas e similares.

O que são genéricos e similares?
Genérico: medicamento com o mesmo princípio ativo, mesma dose e mesma forma farmacêutica do medicamento de referência. Não tem nome comercial e é vendido pelo nome do princípio ativo.

Similar: medicamento com o mesmo princípio ativo, mas com nome comercial próprio. Pode ter diferenças em excipientes, mas precisa comprovar eficácia, segurança e qualidade.

Quem já está produzindo?

A EMS foi a primeira a obter registro de um genérico de semaglutida no Brasil, aprovado pela Anvisa em 17 de agosto de 2026. A Germed, do mesmo grupo, obteve aprovação de um similar chamado Semaclique. Outros laboratórios também aguardam registro.

Linha do tempo da semaglutida no Brasil

  • Março de 2026: expira a patente da semaglutida.
  • Maio de 2026: EMS obtém registro do Ozivy, primeira caneta de semaglutida sintética nacional.
  • Julho de 2026: Anvisa autoriza mais cinco produtos à base de semaglutida.
  • Agosto de 2026: Anvisa aprova o primeiro genérico (EMS) e o similar Semaclique (Germed).
  • Setembro de 2026: governo anuncia intenção de oferecer canetas no SUS.

Os números do mercado

IndicadorValor
Vendas de GLP-1 (12 meses até fev/2026)R$ 13,49 bilhões
Crescimento anual105,9%
Queda de preço da semaglutida (Pague Menos)50%
Aumento de volume da semaglutida (Pague Menos)155%
Potenciais pacientes fora do mercado95 milhões
Estimativa de mercado para 2026 (BTG Pactual)R$ 17 bilhões

O que dizem os envolvidos

Ministro da Saúde, Alexandre Padilha:
"O Brasil é hoje o país com a maior diversidade de medicamentos registrados para o combate à obesidade. Já temos 14 produtos registrados. E isso derrubou o preço para a população. O que estava custando R$ 1,7 mil, R$ 2 mil, já está entre R$ 300 e R$ 400 na farmácia."

Consultor Paulo Paiva, sobre o potencial do mercado:
"É uma categoria que pode atingir até R$ 1 trilhão no país se o custo recuar para patamares próximos a R$ 300."

Sociedades médicas (SBD, SBEM e ABESO):
Em posicionamento conjunto, reforçaram que a expiração da patente "representou possibilidade de entrada no mercado da substância produzida por outros fabricantes" e destacaram a importância da segurança dos medicamentos.

O que ainda não se sabe

  • Preço exato dos genéricos: a expectativa é de que cheguem ao consumidor com preço 35% inferior ao produto de referência, mas os valores de mercado ainda estão sendo definidos.
  • Disponibilidade no SUS: o governo anunciou a intenção de oferecer as canetas gratuitamente, mas ainda depende de estudos e da definição de um protocolo clínico.
  • Margens das farmácias: com preços menores, a rentabilidade das redes pode cair, mesmo com o aumento de volume.
  • Migração do mercado informal: estima-se que 54% do consumo de GLP-1 no Brasil ainda ocorra por canais não regulamentados. A queda de preços pode atrair parte desse público para o mercado formal.
  • Segurança a longo prazo: os genéricos recém-aprovados ainda não têm histórico de uso em larga escala no país.

Fonte:ValorEconomico