O ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), manteve a condenação do hoje deputado Gilvan da Federal (PL-ES) pelo crime de violência política de gênero.

A condenação se refere a um episódio ocorrido em 1º de dezembro de 2021, quando Gilvan era vereador em Vitória (ES). Na ocasião, ele mandou uma colega vereadora calar a boca e a perseguiu pelas dependências da Câmara Municipal. A vítima é Camila Valdão (Psol), hoje deputada estadual no Espírito Santo.

A pena aplicada é de um ano, quatro meses e 15 dias de reclusão, com suspensão condicional (ou seja, o cumprimento pode ser substituído por condições, conforme o artigo 77 do Código Penal).

A decisão do relator negou seguimento ao recurso especial eleitoral apresentado pela defesa. Com isso, a condenação continua valendo — e gera inelegibilidade, o que deve afetar a candidatura de Gilvan a deputado federal pelo Espírito Santo nas eleições de outubro.

Por que essa decisão importa

O caso estabelece um critério jurídico importante: nem toda manifestação ríspida ou ofensiva entre parlamentares configura violência política de gênero. Para que o crime seja reconhecido, é preciso identificar um elemento específico — a assimetria de tratamento.

Em outras palavras: se o agressor trata mulheres de forma mais dura, agressiva ou humilhante do que trata homens, isso pode indicar que a conduta foi motivada pela condição de mulher da vítima, e não apenas por divergência política.

Essa distinção é fundamental porque:

  • Protege o debate político: embates acalorados e críticas contundentes fazem parte da dinâmica parlamentar e são protegidos pela liberdade de expressão.
  • Pune o que é crime: quando a agressão visa silenciar ou impedir a atuação de uma mulher por ela ser mulher, não se trata de debate — trata-se de violência política de gênero.
  • Cria precedente: a decisão serve de referência para casos semelhantes em todo o país.

O que aconteceu no caso

O episódio de 2021
Segundo o processo, a desavença começou quando a então vereadora Camila Valdão tentou pautar uma discussão sobre reivindicações de professores. Gilvan da Federal deu causa ao fim da sessão e, ao tentar persegui-la pelas dependências da Câmara, foi contido por servidores e outros vereadores.
Durante o episódio, ele mandou que ela calasse a boca.

O que a defesa alegou
A defesa de Gilvan sustentou que ele estaria protegido pela imunidade parlamentar, que garante liberdade de manifestação de opiniões — inclusive expressões ásperas, inadequadas ou desagradáveis — quando relacionadas ao exercício da função e proferidas no contexto do debate político.

O que o ministro decidiu
Cueva explicou que a meta do legislador não foi criminalizar toda manifestação ríspida ocorrida no ambiente parlamentar. Ele reconheceu que embates acalorados e críticas contundentes integram a dinâmica do debate político e são protegidos pela liberdade de expressão.

Mas o caso de Gilvan é diferente, segundo o magistrado:

  • O constrangimento imposto à colega não decorreu de um antagonismo político.
  • Embora Gilvan fosse conhecido por discussões ásperas com outros parlamentares, ele nunca se comportou assim com homens.
  • Não há registro de que ele tenha mandado vereadores calarem a boca ou os tenha perseguido pela Câmara.

Portanto, a tentativa de silenciamento e intimidação foi dirigida à vítima em razão de sua condição de mulher.

O que é assimetria de tratamento

A assimetria de tratamento é o elemento que diferencia violência política de gênero de uma simples discussão política.

Assimetria de tratamento

SituaçãoConfigura violência política de gênero?
Discussão acalorada entre parlamentares de ambos os sexos, com ofensas mútuasNão necessariamente
Crítica dura a uma proposta ou voto de uma parlamentarNão
Agressão direcionada apenas a mulheres, com silenciamento e intimidaçãoSim
Tratamento mais duro contra mulheres do que contra homens em situações equivalentesSim

O ministro também destacou que nem o fato de o réu ter votado favoravelmente a propostas da vítima em outras ocasiões basta para eximi-lo da condenação. Isso não descaracteriza a conduta criminosa concretamente praticada.

O que dizem os envolvidos

Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva (TSE):
Reconheceu que o debate político admite rispidez, mas entendeu que o caso concreto revelou tratamento discriminatório contra a vítima por sua condição de mulher.

Defesa de Gilvan da Federal:
Sustentou imunidade parlamentar e liberdade de expressão, alegando que as expressões foram proferidas no contexto do debate político.

Consequências da decisão

  • Mantém a condenação de Gilvan da Federal pelo crime de violência política de gênero.
  • Gera inelegibilidade, o que pode impedir a candidatura dele a deputado federal nas eleições de outubro.
  • Cria precedente para casos semelhantes, reforçando o critério da assimetria de tratamento.
  • Reforça a Lei nº 14.192/2021, que tipifica a violência política de gênero no Brasil.

Fonte:Conjur