O Brasil tenta emplacar na Unesco uma candidatura que, na prática, já nasceu rachada. O parecer técnico do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos) recomendou que apenas o conjunto de Manaus — Teatro Amazonas e Largo de São Sebastião — seja inscrito como Patrimônio Mundial. Belém, com o Theatro da Paz e a Praça da República, ficou de fora da recomendação técnica.
A decisão final cabe ao Comitê da Unesco, que se reúne em Busan, na Coreia do Sul, entre 19 e 29 de julho. Mas o sinal do Icomos é claro: do ponto de vista técnico, o conjunto paraense não atende aos critérios exigidos.
Diante do revés, delegações do Líbano e do Peru apresentaram uma proposta de alteração para tentar salvar Belém da exclusão. O texto, que ainda será analisado pelo Comitê, busca manter o Theatro da Paz na candidatura, reconhecer os dois conjuntos e preservar o nome guarda-chuva "Teatros da Amazônia". É uma articulação política para contornar o parecer técnico — algo que, em tese, o Comitê pode fazer, mas que expõe a fragilidade da candidatura brasileira.
O que o parecer realmente diz
O documento do Icomos reconhece o valor do conjunto de Manaus. Destaca que o Teatro Amazonas e o Largo de São Sebastião simbolizam a construção de uma capital moderna no coração da floresta, financiada pela exploração da borracha. O texto menciona a combinação de tecnologias e materiais importados da Europa com recursos locais, além da preservação da relevância urbana e cultural. O teatro segue recebendo espetáculos e funciona como centro de formação artística e profissional.
Mas o mesmo parecer faz exigências que revelam o lado incômodo dessa história: o Brasil deve criar um Comitê de Gestão, aprovar plano com orçamento definido para conservação e monitoramento, ampliar a participação das comunidades locais e — atenção — desenvolver pesquisas sobre os impactos sociais e ambientais da exploração da borracha, especialmente sobre povos indígenas e migrantes nordestinos.
Ou seja: o Icomos reconhece que o esplendor dos teatros foi construído sobre um sistema de exploração brutal, e cobra que o Brasil encare isso. Não basta celebrar a arquitetura importada da Europa; é preciso investigar o custo humano que a financiou.
O que a matéria não diz
O texto original celebra a candidatura como se fosse uma conquista incontestável. Não menciona:
Por que Belém foi rejeitada tecnicamente — o que o Icomos apontou de insuficiente no conjunto paraense?
Quem são os migrantes nordestinos que morreram nos seringais amazônicos durante o ciclo da borracha.
O que aconteceu com os povos indígenas durante a expansão seringalista — violência, deslocamento forçado, epidemias.
O interesse político por trás da candidatura — Belém sediará a COP30, e um título da Unesco seria um troféu conveniente.
A inconsistência numérica: o texto fala em 30 candidaturas no título da matéria, mas o parecer menciona 33 dossiês avaliados (29 novas, uma retomada, duas alterações de limites e uma reavaliação). Qual é o número correto?
A candidatura "Teatros da Amazônia" é apresentada como celebração da riqueza cultural da região, mas omite que essa riqueza foi construída sobre a borracha — e que a borracha custou vidas indígenas e nordestinas. O Icomos, ao menos, teve a decência de colocar isso no papel.
Contexto maior
O Brasil tem 25 bens reconhecidos como Patrimônio Mundial: 15 culturais, nove naturais e um misto. Em 2025, o Cânion do Rio Peruaçu, em Minas Gerais, entrou na lista. Agora, o país tenta ampliar seu portfólio com uma candidatura que, se aprovada integralmente, será fruto de manobra política, não de consenso técnico.
A 48ª sessão do Comitê avalia 33 dossiês — 29 novas candidaturas, uma retomada, duas alterações significativas de limites e uma reavaliação. Além disso, examina o estado de conservação de 147 bens já reconhecidos. A Coreia do Sul, anfitriã, não apresenta candidatura inédita neste ano.
A avaliação dos dossiês está prevista para ocorrer entre 24 e 27 de julho. A sessão se encerra em 29 de julho.
Fonte: CNN
Sabrina Cristina
Há 1 mês