Israel realizou, nesta terça-feira (27), suas primeiras eleições legislativas desde os ataques de 7 de outubro de 2023, liderados pelo Hamas. A votação ocorre após três anos de guerra, em um ambiente de divisões internas e cobranças por responsabilização pelas falhas de segurança que antecederam os ataques.

O pleito é amplamente visto como um referendo sobre Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro há mais tempo no poder em Israel. Mas as últimas sondagens indicam que nem a sua coligação governamental nem o bloco de oposição liderado pelo ex-chefe militar Gadi Eisenkot têm garantidos os 61 lugares necessários para uma maioria no Knesset, o parlamento israelita de 120 deputados.

Na prática, isso significa que o resultado das urnas pode não definir o próximo governo de imediato. As negociações para formar coligação podem se prolongar por meses. Nesse período, Netanyahu continuaria em funções, mesmo que seus adversários conquistem maioria parlamentar.

A eleição israelense não é apenas uma disputa interna. Ela ocorre em um momento de alta tensão regional, especialmente com o Irã, e uma semana antes das eleições intercalares nos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro.

Há especulação de que Washington e Israel possam ponderar novas ações militares contra o Irã após a campanha eleitoral americana. O calendário político dos dois países pode influenciar diretamente a decisão de retomar ou não hostilidades.

Além disso, o resultado pode afetar a abordagem de Israel em relação a:

  • Gaza
  • Cisjordânia ocupada
  • Líbano
  • Negociações sobre um Estado palestiniano

Ou seja: o que está em jogo não é só quem governa Israel, mas quem decide sobre guerra, paz e ocupação nos próximos meses.

Por que Netanyahu pode continuar no poder

As pesquisas indicam um cenário sem maioria clara para nenhum dos dois polos:

  • A coligação de Netanyahu pode não alcançar os 61 deputados necessários.
  • O bloco de oposição liderado por Gadi Eisenkot também não teria maioria garantida.

Com 120 cadeiras no Knesset, são necessários 61 deputados para formar governo. Sem essa maioria, abre-se um período de negociações que pode durar semanas ou meses.

O que acontece enquanto não há novo governo?

Netanyahu permanece como primeiro-ministro de um governo de gestão. Isso lhe dá poderes significativos, inclusive para autorizar ações militares.

Ou seja: mesmo que a oposição vença, a mudança de governo não será automática.

O que pode mudar com um governo de oposição?

Segundo Mekelberg, uma mudança de governo poderia influenciar a abordagem de Israel em relação a Gaza, à Cisjordânia ocupada e ao Líbano.

Um executivo liderado pela oposição poderia:

  • Cooperar mais estreitamente com esforços internacionais sobre Gaza;
  • Avançar em negociações com o Líbano sobre disposições de segurança;
  • Reavaliar a dependência do uso da força militar nas relações com o Irã.

No entanto, muito dependerá da composição da próxima coligação — incluindo se os partidos que representam cidadãos palestinianos de Israel participarão ou não do governo.

Além disso, os partidos de oposição, embora unidos pelo desejo de substituir Netanyahu, continuam divididos quanto:

  • Ao estatuto de Estado da Palestina;
  • Ao futuro da ocupação israelense de território palestiniano.

Para ele, uma mudança significativa exigiria medidas para aliviar as condições da ocupação e abrir caminho a um acordo negociado.

A cobrança por responsabilização pelos ataques de 7 de outubro

As eleições recolocaram sob escrutínio as falhas de segurança relacionadas aos ataques de 7 de outubro de 2023, que causaram cerca de 1.200 mortos e resultaram em 251 pessoas feitas reféns.

Três anos depois, Israel ainda não criou uma comissão de inquérito estatal independente para apurar como os militantes liderados pelo Hamas conseguiram ultrapassar as defesas e lançar o ataque.

O governo de Netanyahu tem resistido à criação de uma comissão estatal tradicional, cujos membros seriam nomeados pelo presidente do Supremo Tribunal. Em vez disso, prefere um mecanismo alternativo que, segundo críticos, não garantiria independência suficiente.

Mekelberg afirmou que a exigência que une toda a oposição — e provavelmente parte da coligação — é a criação de uma comissão de inquérito estatal:

Para ele, a investigação independente é essencial não só para apurar responsabilidades, mas também para evitar falhas semelhantes no futuro.

Fonte:Euronews