Ganfan Yingying, nome artístico de Chen Ziyi, morreu em 17 de agosto, aos 24 anos. A família confirmou a morte à imprensa chinesa no último dia 4. A causa oficial não foi divulgada, mas dias antes ela havia relatado aos seguidores uma queda perigosa nos níveis de potássio no sangue. Seu perfil no Douyin, a versão chinesa do TikTok, tinha 1 milhão de seguidores. As plataformas desativaram as contas após a morte.

O caso não é isolado. Em 2024, a também chinesa Pan Xiaoting, 24 anos, morreu depois de ingerir 10 kg de comida em um único dia. Em 2025, o turco Efecan Kültür, também 24, morreu por complicações associadas ao excesso de peso. Todos tinham algo em comum: transformaram o ato de comer quantidades absurdas em conteúdo rentável.

A morte não é só do corpo: é do algoritmo

A reportagem original detalha com competência os riscos clínicos da hiperalimentação. Fala em perfuração do estômago, broncoaspiração, obesidade, resistência insulínica, constipação, diverticulite. Cita médicos, explica a capacidade do estômago, alerta para a hipocalemia. Tudo isso é útil. Mas o texto trata a morte de Ziyi como caso individual, quase como se fosse uma fatalidade entre tantas.

Não é. É o resultado previsível de um ecossistema que recompensa o excesso. O like não é vaidade: é renda. O algoritmo prioriza o tempo de exibição. O anunciante paga pelo alcance. A plataforma fatura sobre cada segundo de atenção. O corpo do criador é o custo operacional dessa engrenagem.

Hipocalemia não se explica só por comer muito

A endocrinologista Maíra Brandão, do Grupo Santa Joana, afirma que comer em excesso, por si só, não provoca hipocalemia. As causas mais comuns são perda de potássio pela urina ou pelo trato gastrointestinal, em situações como vômito e diarreia, além do uso de laxantes e diuréticos. O endocrinologista Renato Zilli, do Sírio-Libanês, lembra que dietas restritivas, desnutrição e transtornos alimentares também contribuem.

Ziyi comia muito, mas era extremamente magra. Para a médica ouvida na matéria, ela provavelmente tinha transtorno alimentar e usava estratégias para não absorver a comida, como indução de vômito ou laxantes. Ou seja: o mukbang não é apenas “comer demais”. É, muitas vezes, a face visível de um transtorno alimentar grave, transformado em entretenimento.

A mídia também precisa se olhar

A reportagem da Folha é informativa, mas repete o padrão da cobertura sobre tragédias digitais: ouve médicos, detalha sintomas, lamenta a morte, mas não cobra responsabilidade das plataformas. Não pergunta por que o Douyin permitiu que uma pessoa com sinais evidentes de transtorno alimentar acumulasse 1 milhão de seguidores. Não questiona se houve denúncias, se algoritmos recomendaram o conteúdo, se houve monetização.

Também não explora o fato de que o mukbang é um fenômeno antigo, conhecido, estudado — e que as plataformas já foram alertadas inúmeras vezes. A morte de Ziyi não pegou ninguém de surpresa. Pegou apenas o público, que assistia ao espetáculo sem saber que estava vendo uma doença em tempo real.

O que fica de fora

Quantos outros criadores de mukbang apresentam sinais de transtorno alimentar?

As plataformas têm política clara para remover conteúdo de risco?

Há regulação em China, Coreia do Sul, Brasil ou União Europeia?

Os anunciantes que patrocinam esses vídeos foram responsabilizados?

A família de Ziyi pretende processar alguém?

Nada disso aparece. A matéria termina com uma frase da médica sobre “levar o corpo ao extremo para ter likes e visualizações”. É uma conclusão moral, não estrutural. O problema não é só a vaidade humana. É um modelo de negócios que transforma transtorno alimentar em produto.

Conclusão

Ziyi morreu aos 24 anos. Pan Xiaoting morreu aos 24. Efecan Kültür morreu aos 24. Não são coincidências. São vidas ceifadas por uma indústria que lucra com o excesso e se esconde atrás do discurso da “escolha individual”.

Enquanto as plataformas não forem responsabilizadas, enquanto não houver regulação efetiva e enquanto o algoritmo continuar premiando o risco, novos nomes vão ocupar os mesmos perfis. E a mídia vai continuar escrevendo obituários com tom de alerta — depois que o like já foi contabilizado.

Fonte: FolhaDeSãoPaulo